Telemóvel desligado, silêncio absoluto e 10 horas de meditação por dia. Glen Geerligs, de 35 anos, viveu esta experiência não uma, mas duas vezes na vida. Durante 11 dias consecutivos, mergulhou num retiro Vipassana, onde desafiou o corpo e a mente sem nunca ter meditado.
“Soube através de um amigo e achei interessante. Para mim, não era tanto sobre meditação, mas mais sobre sair da minha zona de conforto e viver uma experiência enriquecedora”, conta.
Existem 270 centros oficiais de Vipassana espalhados pelo mundo e todos seguem o mesmo Código de Disciplina desta técnica de meditação indiana. Com 25 anos na altura, o holandês escolheu a unidade localizada em Dilsen-Stokkem, na Bélgica.
“É uma das meditações mais antigas, usada por Gautama Buda. E a melhor parte é que é muito acessível. É basicamente gratuito. No final do curso, cada pessoa faz a doação que puder e considerar justa”, explica.

Mas afinal, o que é o Vipassana? A palavra significa literalmente “ver as coisas como realmente são” e refere-se a uma técnica de observação profunda da mente e do corpo, desenvolvida para promover autoconhecimento, equilíbrio emocional e clareza mental.
Seita ou experiência transformadora?
Ainda assim, a primeira impressão não foi das melhores. “Senti como se fosse uma seita”, admite. Havia cerca de 100 pessoas no recinto, todas em silêncio, enquanto uma meditação guiada por áudio tocava durante uma hora. “Pensei: o que estou eu a fazer aqui?”, recorda. Mas, curioso e aberto a novas experiências, decidiu dar uma oportunidade ao processo.
Todos os dias, acordava às cinco da manhã ao som de um gongo e praticava duas horas de meditação sozinho, no quarto ou no jardim. Seguia-se o pequeno-almoço com aveia e fruta, totalmente vegetariano, tal como as restantes refeições. Depois, participava numa sessão de grupo obrigatória com duração de uma hora.
“Essas sessões aconteciam quatro a cinco vezes por dia. Há um professor presente, mas aprendemos a meditação através de gravações áudio. É a voz de Goenka, que aprendeu a técnica com um mestre há muitos anos”, explica.
Segundo Glen, estas sessões eram momentos de aprendizagem profunda. Foi ali que percebeu o poder da respiração e a forma como podia usar o corpo a seu favor. “Existem dois elementos principais: a respiração e o escaneamento do corpo. A mente vai constantemente para o passado e para o futuro. Mas esta técnica ensina-nos a regressar ao centro”, comenta.
Apesar dos benefícios, a prática também coloca à prova quem decide fazê-la. Primeiro, pelo desgaste físico causado pelas longas horas sentado em posição meditativa, de pernas cruzadas. Depois, pelo cansaço mental provocado pela tentativa constante de manter a concentração, sem poder conversar, escrever ou ler durante os momentos livres.
“Foi muito difícil. Quando terminava um dia, parecia que já estava lá há uma semana. As costas doem, os joelhos doem, tudo dói”, admite.
Quando o silêncio fala mais alto
Comparado com as dores físicas, o silêncio acabou por não ser tão desafiante quanto imaginava. Na verdade, permanecer calado ajudou-o a melhorar a relação com os próprios pensamentos.
“Começamos a perceber o quão caótica a mente é. E é engraçado porque, para mim, chegou a um ponto em que os meus pensamentos deixaram de ser interessantes e eu simplesmente ignorei-os.” Além disso, o propósito de não conversar com os outros passa também por evitar comparações. “Cada experiência é única.”
À noite, havia mais uma sessão de grupo e o jantar, composto apenas por duas peças de fruta escolhidas pelo participante. “Quanto mais vazio estiver o estômago, mais concentrados conseguimos estar”, explica.
Ao fim dos 10 dias, Glen sentia sobretudo alívio. O objetivo de se desafiar, sair da zona de conforto e viver uma experiência enriquecedora tinha sido totalmente cumprido. “Senti-me muito equilibrado, calmo e focado. Conseguia concentrar-me muito mais nas minhas atividades, sem pensar noutras coisas”, conta.
Ainda assim, os efeitos não duram para sempre. “Estes 10 dias não vão fazer com que uma pessoa permaneça equilibrada para o resto da vida. O objetivo é integrar isto no quotidiano.”
“Ganhei uma técnica valiosa. É uma ferramenta que posso usar para sempre, onde quer que esteja”.
A recomendação dos professores do retiro é meditar diariamente: uma hora de manhã e outra à noite. Glen já passou por fases mais e menos consistentes, mas atualmente consegue meditar 45 minutos de manhã, pelo menos cinco dias por semana. Para ele, esse foi o maior presente que o retiro lhe deu.
“Ganhei uma técnica valiosa. É uma ferramenta que posso usar para sempre, onde quer que esteja. Toda a gente respira e toda a gente tem um corpo, por isso está sempre comigo. Se estiver feliz ou em pânico, posso usá-la para me tornar uma pessoa melhor ou sentir-me mais seguro”, afirma.
Além disso, através da meditação, Glen começou a aceder a sentimentos mais profundos e a feridas emocionais antigas. “É como se as dores e os traumas viessem à superfície e, assim, conseguisse encontrar uma forma de os libertar de dentro de mim.”
O regresso ao retiro passados dois anos
Dois anos depois, decidiu regressar ao retiro para voltar a testar o corpo e a mente. Desta vez, como aluno antigo. “É um programa um pouco diferente. Aprofundamos mais a técnica e adquirimos mais conhecimento sobre o Vipassana.”
Ao contrário do que imaginava, a segunda experiência foi ainda mais difícil. “Da primeira vez existe o fator surpresa. Não sabemos o que vem a seguir. Quando já somos alunos antigos, sabemos exatamente o que nos espera”, diz.

As dores físicas foram as mesmas, tal como a mente “caótica” e a sensação de alívio no final. E, apesar de todos os desafios, Glen quer repetir novamente a experiência, mas desta vez como voluntário. “Limpamos e cozinhamos para as outras pessoas. É uma perspetiva diferente porque aprendemos a integrar a técnica enquanto fazemos tarefas do dia a dia”, explica.
A vida em Lisboa
Formado em Turismo e Serviço Social, Glen vive em Lisboa e trabalha remotamente numa agência de viagens para jovens holandeses. Por enquanto, não consegue ficar 11 dias completamente desligado do trabalho, mas continua à procura de novas formas de recuperar a prática do Vipassana. Recentemente, encontrou um centro em Braga que organiza cursos intensivos de um dia e já está a planear quando participar.
“Todos deviam experimentar pelo menos uma vez na vida.” Para ele, mesmo que alguém não se identifique com a prática ou não goste da experiência em si, continuará a ser um desafio transformador e uma vivência única.
“O facto de ser difícil não pode ser um impedimento. Na maioria das vezes, as coisas mais difíceis da vida acabam por ser também as mais valiosas”, conclui.